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Mais de 70 mil pessoas, de 121 nacionalidades, são reconhecidas como refugiadas e portadoras de visto humanitário no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Justiça. O crescente interesse pelo Brasil por parte de indivíduos em busca de proteção internacional impulsiona a mobilização de organizações governamentais e não governamentais na busca por políticas públicas que garantam a inclusão e o pleno exercício de direitos e oportunidades para essas pessoas. E a Educação Superior é apontada como um caminho fundamental para a reconstrução das vidas e o empoderamento de pessoas em situação de refúgio no Brasil.

Educação superior é caminho para integração de refugiados e portadores de visto humanitário
Educação superior é caminho para integração de refugiados e portadores de visto humanitário

Em Foz do Iguaçu, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) oferta, há oito anos, processos seletivos específicos para refugiados nos cursos de graduação. Com o ingresso desses estudantes, a Universidade precisou repensar seus programas de permanência e apoio, a fim de adaptar para esse grupo de discentes, que têm características muito específicas.

As coordenadoras da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM) da UNILA apontam que alunos refugiados e portadores de visto humanitário precisam de um olhar diferenciado em relação a outros estudantes internacionais. Para ser considerado refugiado pelo governo brasilero, o estudante deve ter saído de seu país devido a ameaça ou efetiva perseguição por motivos de raça, religião, participação em grupo social ou opinião política, ou ainda, devido a violações de direitos humanos. “Ou seja, esse estudante já passou por traumas não concebíveis para o ser humano, além disso são estudantes que, por sua condição não podem retornar ao seu país o que os tornam desprotegidos em vários aspectos, dentre eles o emocional. Um olhar atento para as necessidades deles se faz necessário justamente por ser um público vulnerável”, indica Laura Amato, docente da área de Línguas da UNILA. Laura coordena a Cátedra Sérgio Vieira de Mello na UNILA juntamente com a professora Karen dos Santos Honório.

Conforme informações do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), apenas 1% dos imigrantes e refugiados do mundo conseguem se inserir nas universidades. No Brasil, estima-se que 6% dos refugiados frequentem o ensino superior. Na avaliação dos membros da Cátedra, os alunos enfrentam dificuldades de fundo econômico, acadêmico e psicológico que os impedem de ingressar e permanecer no ensino superior.

Esperança de dias melhores

Mas apesar das dificuldades, o resultado dos esforços por incluir essa população é visível nas histórias de muitos refugiados e portadores de visto humanitário que estão na UNILA. O acesso à universidade pública e gratuita representa a esperança de dias melhores depois de processos difíceis de deslocamento forçado. “Desde que cheguei no Brasil, em 2017, eu queria continuar meus estudos. Tentei entrar em outras faculdades, mas não consegui porque era muito complicado. Até que conheci a UNILA através de um amigo e fiquei apaixonado pelo que a Universidade representa, pelo projeto de integração latino-americana e também por ser uma das poucas faculdades que dão oportunidade de formação superior para os refugiados sem tanta burocracia”, contou o venezuelano Jesus Alberto León, acadêmico de Relações Internacionais e Integração.

Atualmente, Jesus atua em ações de monitoria acadêmica voltada para o acolhimento de alunos indígenas, refugiados e portadores de visto humanitário na UNILA. E ele já faz planos para quando concluir a graduação. “Eu me enxergo depois de terminar meu curso fazendo uma pós-graduação voltada para a temática dos refugiados, já que quero trabalhar e me aprofundar para melhorar as condições do refugiado no Brasil. Gostaria de trabalhar em alguma instituição de ajuda e proteção de refugiados, como a ACNUR”, projeta.

Atuar profissionalmente com outros refugiados também é o sonho da haitiana Djenika Senatus. “Eu estava morando na República Dominicana quando um amigo me contou sobre a oportunidade de vir estudar no Brasil. Para mim essa foi uma das melhores notícias que recebi naquela época. Estar aqui no Brasil, na UNILA, é uma das coisas que, se eu precisasse, eu faria mil vezes de novo. É uma experiência única ter a oportunidade de construir meu sonho de estudar e ter uma carreira que vai me permitir ajudar mais pessoas no futuro e, ao mesmo tempo, conviver com tantas nacionalidades diferentes. Isso não tem comparação”, descreve a estudante, que está no Brasil desde 2019.

Já para Asmara Backerdwing Saintyl, estudar da UNILA foi a oportunidade de concretizar um sonho antigo: ser médica. “O principal desafio é a adaptação cultural. Ao chegar em um país estrangeiro, é muito complicado se adaptar, principalmente por conta das barreiras linguísticas. Mas estou feliz em conseguir vencer esse desafio e superar meus medos. Apesar das dificuldades encontradas no caminho, vou sair daqui sendo médica. Isso é uma grande conquista pra mim”, declarou a haitiana, que está no oitavo período do curso de Medicina.

A inclusão de pessoas em condição de refúgio representa uma ação de responsabilidade social e humanitária da Universidade, mas também propicia o enriquecimento cultural do ambiente universitário que se torna mais plural e aberto para a diversidade. “Ao abrirmos as portas para refugiados e portadores de visto humanitário, extrapolamos os muros da América Latina e Caribe, refletindo assim sobre questões globais com a presença desses próprios atores. Estes estudantes e docentes aqui presentes fazem com que repensemos a forma de ensinar, aprender e fazer ciência. É um intercâmbio com diversos países sem sair da sala de aula”, frisa professora Karen dos Santos Honório.

Assessoria

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